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    A Vida Humana!





    Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma.
    (Cora Coralina)

    A Vida Humana!

    A vida humana pode ser comparada a uma rosa no jardim. O bebê é o botão que desabrocha, delicadamente.

    Na medida em que vai se abrindo, vai se extasiando com o orvalho na madrugada de luz, o brilho do cristal ao toque do sol, nas primeiras horas da manhã, o calor do astro rei na tarde ensolarada.

    Quanto mais se abre para o mundo, mais descobertas realiza. Corajosa, a criança não lê obstáculos nas linhas da vida.

    Tudo ela tenta, experimenta, apalpa e sente. Confiante, estende os braços a quem lhe oferece o colo.

    Perseverante, insiste nas tentativas, sem se permitir considerar derrotada pela latinha que não abre, o brinquedo que não roda, o boneco que teima em não ficar de pé.

    Nenhum obstáculo a detém: – uma escadaria que parece não ter fim, uma porta fechada, o portão trancado.

    Estranhamente, à proporção que cresce, parece se esquecer desse seu lado brilhante.

    Nos primeiros anos escolares, pode se mostrar fechada às novidades e até apresentar baixa rentabilidade escolar.

    Mais tarde, já madura, exatamente como o botão totalmente aberto, os bloqueios se fazem maiores. Os percalços são considerados intransponíveis.

    Enquanto envelhece gradativamente, mais entraves se coloca: – Minha memória não é boa. Esqueço tudo. Estou ficando velha.

    Deixa de cogitar de aprender algo novo. Exatamente no período em que, de um modo geral, passa a ter um tanto mais de tempo livre.

    A aposentadoria chegou, os filhos casaram, as obrigações decrescem em número. Tudo o que se pensa em ter durante os anos da juventude, da madureza, agora se encontra à disposição: mais tempo.

    No entanto, esse tempo é inutilizado. E se há algo que realmente faz a pessoa envelhecer é a ociosidade, o não fazer nada.

    Enquanto a rosa no jardim vai perdendo o viço, murchando e despetalando, o homem se permite também fenecer.

    Mas tudo pode ser diferente. Nunca é tarde para aprender.  Envelhecimento nada tem a ver com perda de memória. A não ser que a pessoa seja portadora de alguma enfermidade, que prejudique as funções mentais, as intelectuais.

    Absorver sabedoria dos livros, aprender a tocar um instrumento, exercitar-se numa nova língua. Tudo aquilo que não se teve tempo ou possibilidade de fazer antes, eis uma chance maravilhosa.

    Oscar Niemeyer, conhecido arquiteto brasileiro, com mais de cem anos, afirmou: – Não vejo problema algum com minha idade. Nasci em 1907. Desde cedo dediquei-me a ver a poesia que vibra nas curvas das imagens, e não apenas nas linhas retas e tensas.

    Prossegui com afinco e dedicação em busca de meu crescimento, e posso afirmar que sou uma pessoa feliz.

    Ajudei as pessoas o quanto pude e aprendi a contemplar a natureza, de modo que todas essas coisas somadas, e muitas outras mais, me trazem a convicção da serenidade.

    E conhecido locutor da televisão afirmou, nos seus setenta anos de idade: – Tenho um projeto a realizar antes de morrer.

    Deverá levar quatorze anos para a sua concretização. Nele utilizarei a minha voz, que hoje se encontra mais encorpada, mais sonora do que jamais o foi.

    Espero que o bom Pai não me leve antes. Desejo concluir esse projeto antes de partir.

    Isto é velhice abençoada. Isto é não murchar, embora o tempo tenha desenhado seu mapa nas faces de quem sorri para a vida, a cada amanhecer.

    Envelhecer com dignidade é ter sempre em mente um projeto de vida para o dia que ainda não nasceu.