
Da redação
O grupo Falsa Modéstia apresenta o espetáculo “A Loucura que Ilumina”, de autoria de Pedro Couto, nestes dias 18 e 21, segunda-feira e quinta-feira, às 14h, no Caps II, situado na rua Maneco Pereira, 750. Entre outros objetivos, a encenação acontece neste período para marcar a Semana da Luta Antimanicomial.
A apresentação tem entrada franca e integra a programação de circulação de trabalhos artísticos contemplados pelo Edital de Cultura 12/05 “Carlos Ribeiro”.
A encenação tem à frente os atores Pedro Couto, Dalila Ribeiro e Fernando Goivinho, que levam ao palco uma montagem construída a partir de histórias reais e um tema ainda cercado de “silêncio” e preconceito: os transtornos mentais, em especial a esquizofrenia.
“A Loucura que Ilumina” nasce da proposta de dar visibilidade a “vozes historicamente marginalizadas pela exclusão social e pelo estigma em torno da saúde mental”.
O espetáculo é inspirado nas trajetórias de Arthur Bispo do Rosário, José Datrino (Profeta Gentileza) e Estamira, personagens reais que, “embora diagnosticados com transtornos mentais, deixaram legados marcados pela potência criativa, pela espiritualidade e por uma leitura singular do mundo”, aponta a produção.
“Ao aproximar o público dessas histórias, a montagem busca transformar o palco em espaço de escuta, empatia e reflexão”, segue a divulgação.
“No centro da proposta, está o questionamento das fronteiras que costumam separar loucura e lucidez, arte e delírio, marginalidade e transcendência”, detalha.
A trajetória de Arthur Bispo do Rosário, por exemplo, é retomada como símbolo dessa complexidade: internado em um hospital psiquiátrico, ele transformou o confinamento em produção artística, criando bordados, mantos, inventários e objetos que hoje são reconhecidos internacionalmente como expressão legítima de arte e resistência.
“A presença de Bispo na dramaturgia aponta para uma experiência em que a dor e a institucionalização não impediram a construção de um universo poético próprio”, argumenta Couto.
Outra referência é José Datrino, o Profeta Gentileza, conhecido pelas mensagens de “gentileza gera gentileza” espalhadas em muros e pilastras do Rio de Janeiro.
Sua figura, que emerge na cultura popular como símbolo de paz e espiritualidade urbana, é retomada no espetáculo como exemplo de como um indivíduo diagnosticado com transtorno mental pode, ao mesmo tempo, “ocupar um lugar de marginalidade e se tornar referência ética e afetiva para milhares de pessoas”.
Já Estamira, mulher cuja história foi registrada em documentário premiado, “aparece como voz que, em meio a uma fala fragmentada, articula crítica contundente à sociedade, à exclusão e à forma como a diferença é tratada”.
A montagem parte dessas trajetórias para propor “um olhar que humaniza a loucura”. Em vez de reduzir a esquizofrenia e outros transtornos a diagnósticos ou estereótipos, “A Loucura que Ilumina” enfatiza a dimensão poética, filosófica e existencial presente nas falas e ações das personagens retratadas.
A dramaturgia sugere que, por trás dos rótulos, há experiências de sensibilidade, espiritualidade, dor, resistência e criação que ajudam a iluminar contradições sociais e a forma como se encara a diferença.
A proposta é que o espetáculo seja não apenas um evento cultural, mas também “uma oportunidade de encontro, troca e construção de novas percepções sobre a saúde mental”.
Entre os objetivos do projeto, está a conscientização sobre os impactos do preconceito e da exclusão social na vida de pessoas com transtornos mentais.
“A ideia é sensibilizar o público para as experiências de quem convive com diagnósticos como a esquizofrenia, mostrando como o estigma interfere no acesso a direitos, no convívio comunitário e na possibilidade de reconhecimento de talentos e potencialidades”, argumenta Couto.
“Ao colocar em cena personagens que foram, ao mesmo tempo, alvo de discriminação e produtores de obras e gestos marcantes, o espetáculo busca deslocar o olhar do déficit para a potência”, declara o diretor.
Outro eixo central é a valorização da arte como expressão legítima da subjetividade e ferramenta de inclusão. “Ao apresentar trajetórias de artistas diagnosticados com esquizofrenia, ‘A Loucura que Ilumina’ enfatiza que a produção artística não é um adorno, mas parte de uma forma de existir, elaborar o mundo e se comunicar”.
“Nesse sentido, o teatro aparece como linguagem capaz de mobilizar afetos, provocar reflexão e gerar empatia, especialmente em um contexto em que ainda há baixa educação em saúde mental e em que o preconceito muitas vezes impede o acesso a tratamento e à convivência plena em sociedade”, argumenta a produção.
O projeto prevê, ainda, que as apresentações sejam articuladas a ações de diálogo, como rodas de conversa com psicólogos, psiquiatras, arte-educadores, profissionais da saúde, familiares e pessoas com experiência em saúde mental.
Após o espetáculo, são promovidos debates com o propósito de “se aprofundar os temas abordados em cena, estimular a escuta ativa e contribuir para a desconstrução de preconceitos”.
“Nessas conversas, a expressão de quem vive o cotidiano da saúde mental se soma à abordagem artística, criando um ambiente propício à troca de experiências e à construção coletiva de conhecimento”, aponta Couto.
A circulação da peça ainda pode incluir apresentações em teatros, escolas, centros culturais, instituições de saúde mental e espaços comunitários, de forma itinerante.
“A intenção é atingir diferentes territórios e públicos, ampliando o acesso à cultura e, ao mesmo tempo, levando o tema da saúde mental para além dos grandes centros”, informa o diretor.
Ao percorrer diferentes locais, “A Loucura que Ilumina” pretende construir redes de apoio e parcerias com instituições, faculdades e coletivos culturais, de modo a garantir a continuidade do projeto e a possibilidade de desdobramentos em outras cidades ou formatos, antecipa o diretor.
A relevância da iniciativa é apontada pela própria equipe como resposta a um dos problemas mais persistentes da sociedade contemporânea: o estigma associado ao transtorno mental.
Materiais educativos e reflexivos, como cartilhas, vídeos e exposições paralelas, também fazem parte do escopo do projeto. A ideia é complementar o espetáculo com conteúdos que possam ser utilizados em escolas, serviços de saúde e espaços comunitários, “prolongando o impacto da experiência artística e oferecendo subsídios para que o tema seja trabalhado em diferentes contextos”.








