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    Mercado Municipal de Tatuí: passado pelo bem do futuro

    A decisão de iniciar o ciclo de investimentos de Tatuí como estância turística pela revitalização e readequação do Mercado Municipal é, em simultâneo, um gesto simbólico e uma escolha estratégica.

    Reconhecendo que o equipamento há anos vem sendo subutilizado e, em parte, até marginalizado, o município indica qual projeto de turismo pretende construir: um turismo que não se dissocia da história local, que respeita o patrimônio e – por isso mesmo – é capaz de gerar desenvolvimento econômico sem renunciar à identidade tatuiana.

    Não é por acaso que o Mercado Municipal tenha sido aprovado, por unanimidade, no Comtur como o primeiro destino dos recursos da cidade como estância do estado de São Paulo.

    Localizado em área central, ligado à memória fabril da antiga “Manchester paulista” e citado na legislação municipal como local de interesse cultural e turístico desde 2019, o mercado reúne atributos que o tornam um verdadeiro “coração urbano”.

    No entanto, como reconhece o próprio secretárioadjunto da Cultura, Rogério Vianna, o entorno havia se tornado um espaço evitado, associado quase apenas ao terminal de ônibus e à circulação funcional, distante da ideia de convivência e lazer que hoje se busca para uma cidade turística.

    O projeto apresentado aos conselhos de Patrimônio, Pessoa com Deficiência, Políticas Culturais e Turismo aponta para uma mudança de paradigma.

    Não se trata apenas de reformar um prédio, senão de requalificar uma área inteira da cidade, a partir de um olhar cuidadoso sobre o passado e de uma aposta clara no futuro.

    Estudos conduzidos pela Fatec Tatuí e pela equipe técnica da prefeitura resgataram a história do mercado, identificaram as diversas intervenções que o descaracterizaram ao longo das décadas e localizaram – inclusive com apoio de voos de drone – a fachada original em tijolinhos, ainda existente, porém escondida atrás de anexos e depósitos.

    A proposta de recuperar essa fachada – com todo o “ritmo arquitetônico”, simetria e linguagem fabril que a caracterizavam – é central para compreender o alcance da intervenção.

    O novo projeto não pretende apagar a trajetória do edifício, mas revelar o que foi encoberto, integrar o antigo e o novo e permitir que a população reconheça no Mercado Municipal, novamente, um elemento de orgulho e pertencimento

    Entre as intervenções antecipadas, uma se destaca – entre outras também realmente promissoras: transformar o corredor hoje percebido como “túnel” em um conjunto arquitetônico integrado, com eixos de orientação claros, espaços amplos e iluminados. Isso denota a consciência concreta na direção de um turismo que valoriza o patrimônio em vez de substituílo.

    Do ponto de vista funcional, a reorganização interna do mercado também merece atenção. O estudo identificou áreas ociosas, bancas superdimensionadas e pouca clareza na setorização.

    A partir daí, o projeto passou a prever uma divisão racional dos usos: áreas específicas para venda e manipulação de alimentos, um setor de “secos e molhados”, açougues, hortifrúti, apoio administrativo, sanitários adequados e, sobretudo, uma praça de alimentação qualificada, incluindo um espaço dedicado aos doces – produto emblemático da cidade e já consolidado como atração turística pela Feira do Doce.

    A ideia é “simples”, porém, há muito tempo óbvia e cobrada sistematicamente: oferecer ao visitante um local onde possa consumir, com conforto, aquilo que Tatuí produz de melhor.

    A despeito disso, há a preocupação de se preservar quem já está no mercado. A equipe técnica deixou claro que o projeto partiu do número atual de ocupantes para dimensionar a nova configuração, com a intenção de realocálos em espaços mais otimizados, compactos e “interessantes”.

    Em vez de expulsar ou descaracterizar o uso popular, a proposta busca qualificálo, reorganizando bancas, ampliando a claridade interna e nivelando pisos, inclusive com atenção às normas de acessibilidade.

    Essa opção revela uma concepção de turismo que não exclui, mas integra: o comerciante tradicional é visto como parte do patrimônio vivo que se deseja preservar.

    Outro mérito é a integração do mercado com o tecido urbano do centro histórico. A readequação da rua Prudente de Moraes, pensada como via de passeio que liga a Praça da Matriz ao Mercado Municipal e, futuramente, à praça Anita Costa, sinaliza um redesenho cuidadoso dos fluxos de pedestres e da fruição do espaço público.

    O alargamento de calçadas, a criação de áreas livres e o reposicionamento da função viária representam intenção objetiva de que o centro de Tatuí está sendo preparado para oferecer uma circulação segura e atrativa, contemplação, consumo e convivência – exatamente o que se espera de uma estância turística que queira receber bem seus visitantes.

    Esse conjunto de ações ganha ainda mais sentido quando observado no contexto regional. Ao lembrar que Tatuí está a poucos minutos de atrativos como Cesário Lange, Torre de Vigia e o centro de paraquedismo de Boituva, o secretárioadjunto da Cultura toca em um ponto essencial: a cidade não precisa concentrar todos os atrativos em si, mas pode se firmar como ponto estratégico de hospedagem, alimentação e serviços.

    Um Mercado Municipal revitalizado, bonito, funcional e cheio de vida tem potencial para se tornar parada obrigatória desse visitante que circula pelo entorno, fortalecendo o comércio local e ampliando o tempo de permanência na cidade.

    Por fim, é preciso reconhecer o acerto em destinar a primeira verba da estância turística a um projeto no “coração da cidade”, como ressaltou o turismólogo Rafael Halcsick Coutinho.

    A revitalização do mercado é um investimento que conjuga, de forma exemplar, os três propósitos que devem nortear o uso dos recursos turísticos: preservação do patrimônio, valorização das tradições e dinamização econômica.

    Em vez de optar por intervenções vistosas, porém desconectadas da história local, Tatuí escolhe recuperar um espaço que sempre foi importante para sua vida cotidiana e que agora se prepara para ocupar um novo papel, como âncora do turismo urbano, gastronômico e cultural.

    Quando as obras forem concluídas, o Mercado Municipal terá deixado de ser um lugar apenas de passagem apressada para se tornar um ambiente de encontro, memória e “descobertas”.

    Turistas buscarão ali produtos típicos, doces, sabores e histórias; moradores redescobrirão um espaço que volta a valorizar o passado pelo bem de seu futuro.

    E Tatuí, que se afirma como estância turística e se aproxima de seus 200 anos, poderá entender que fez bom uso de um recurso público precioso: transformou verba em legado, patrimônio em atrativo e tradição em oportunidade de desenvolvimento.