
Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias
Cristiano Mota
De acordo com Rady (1973), em maio de 1682, a coroa autorizou por meio de carta régia Jacintho, Abreu e Lumbria (sem mencionar Paschoal) a abrir uma fundição na montanha de Biraçoiaba. Rodrigues (1952) acrescenta que a oficina foi levantada no Morro de Ferro, e que Lumbria, falecido no Rio de Janeiro, recebeu carta régia em 1698, em agradecimento de Dom Pedro II pelos serviços prestados à Coroa, mas não especificamente pela fundição.
Vernhagem (1927), quando escreve sobre a história da mineração no Brasil, também cita as mesmas cartas régias. Diz ele que Abreu, Jacinto e Lumbria receberam a autorização em correspondência de “2 a 5 de maio de 1682”, e os agradecimentos em outro documento, este, de 20 de outubro de 1698, prometendo gratificações ao capitão-mor de Itanhaém.
Como se vê, nenhum dos autores menciona a construção de uma capelinha em homenagem à Nossa Senhora del Popolo (cujas variações incluem Pópolo, Populo e Pópulo) atrelada à instalação de uma fundição de ferro na região do morro.
Além disso, a população que vivia no entorno já contava, desde 21 de abril de 1660, com a capela de Nossa Senhora da Ponte, doada por Baltazar Fernandes, que lhes permitia exercer os sacramentos. A transferência definitiva deu-se em 3 de março com a autorização de nova mudança do pelourinho.
Registra-se, porém, a circulação de materiais sem autoria ou referências em diversas plataformas e para públicos diversos – até mesmo em documentos oficiais – com a informação de que Paschoal e Jacintho levantaram a Fábrica de Ferro de Ipanema (atualmente em Iperó), e, a partir dali, fundaram a povoação que obteve título de paróquia e da qual, então, Tatuí teria se originado. Ressalta-se que, à época, a fundição não tinha nome, o que só aconteceria em 1811.
Outro indicador de que não havia relação direta entre os irmãos Moreira Cabral, a fábrica de ferro e Tatuí é a carta de sesmaria concedida em 11 de março de 1698 pelo capitão-mor Thomé Monteiro de Faria, governador da Capitania de Itanhaém e representante do conde da Ilha do Príncipe, em favor do capitão-mor Lopes de Carvalho.
O documento destinava-lhe uma área correspondente a quatro léguas de terras em quadra para a construção de uma fundição no termo da vila de Nossa Senhora da Ponte, na paragem da Serra de Birassuiaba.
A posse da área, a invocação de outra padroeira e o estabelecimento da propriedade distante da futura São João do Ipanema, inviabilizam a tese de Tatuí ser uma ramificação dos irmãos paulistas. Mas isso não os exclui da história da cidade.
Indiretamente, Paschoal, que fora caçador de índios, e Jacintho, vereador presidente da Câmara da Vila de Sorocaba, ao explorarem a região, atraíram a atenção de outros colonos em busca de prosperidade e impulsionaram o povoamento das serras de Araassoiava, que, mais tarde, se desmembraram nas cidades de Araçoiaba e Iperó. E é dessa região que saem pessoas que vão se juntar ao núcleo tatuiano.
Todo esse movimento populacional é resultado direto das mudanças provocadas pela instalação da Fábrica de Ferro – cuja criação foi autorizada por carta régia de 4 de dezembro de 1810 –, por sua administração e pelas iniciativas religiosas a ela vinculadas. A ideia da Coroa era que o estabelecimento pudesse abastecer o Brasil e gerar excedente para exportação, a partir de Sorocaba.
No documento, Dom João VI destacou a riqueza da mina (com base em inúmeros estudos) e a existência de matas previamente reservadas para fornecer combustível.
Essa determinação de demarcação da região – um tópico a ser retomado mais adiante –, é um fato importante para compreensão sobre a constituição de Tatuí como povoado.
Em 12 de julho de 1811, o príncipe regente expediu outra carta relacionada ao “estabelecimento montanhístico”. Determinou a Manuel Teles da Silva, o Marquês de Alegrete, então governador e capitão-general da capitania de São Paulo, empenho na construção da fábrica, reforçando a necessidade de priorizar a infraestrutura industrial e a mão de obra especializada, estimulando a ocupação com focos distintos.
O primeiro, o cultivo de cânhamo (para produção de cordas e velas navais); o segundo, a domesticação dos indígenas, mencionada como ato de civilização, visando consolidar a rota entre São Paulo, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. A mineração e a exploração de madeiras deveriam seguir ordens prévias.
Passados pouco mais de dois anos, em 10 de novembro de 1813, o empreendimento foi oficialmente batizado como Real Fábrica de Ferro de Ipanema pela Junta Diretora, órgão administrativo criado para gerir a produção siderúrgica e supervisionar a exploração das minas de ferro de Sorocaba.
À época, as obras estavam sob responsabilidade de engenheiros suecos — liderados inicialmente por Carl Gustav Hedberg —, com apoio de técnicos portugueses. Hedberg, porém, foi demitido em 1814 e substituído, em 1824, por Antônio Xavier Ferreira.
Nesse mesmo ano, em 27 de setembro, a direção da fábrica passou para outras mãos. Assumiu o comando Friederich Ludwig Wilhelm von Warnhagen, nomeado para o cargo de sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros, com a missão de reformar a produção – inclusive trazendo fundidores alemães para modernizar as operações. É ele que enfrentará, mais tarde, além de desafios técnicos, desentendimentos com o baixo clero e com os moradores da região.






