
Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias
Cristiano Mota
O morro de Araçoiaba – também conhecido como Morro de Ipanema – tornou-se um dos primeiros locais de exploração mineral do interior do Brasil. Sua descoberta é atribuída tanto a Affonso Sardinha, o velho, como a Affonso Sardinha, o moço.
Rodrigues (1957) confere ao velho a descoberta de ferro no ano de 1589; Marques (1953) menciona que pai e filho participaram da empreitada; Machado (1929) acrescenta que os trabalhos contaram com a colaboração do paulista Clemente Álvares (ou Alves), sócio dos Sardinha na mineração, e que ajudou na construção de “dous fornos catalães para o preparo do ferro” (Franco, p. 13); já Freire (1894) indica que o filho foi o protagonista.
As “Actas da Câmara da Villa de São Paulo” (1592), publicadas pelo Arquivo Municipal de São Paulo, confirmam que o moço fizera a entrada ao sertão, sendo autorizado a explorar metais na região, mas não em 1582. Ele descobre, em vez de ouro, uma montanha de ferro de alta pureza. Lá, constrói um forno catalão rudimentar para fundição, mas abandona os trabalhos devido às dificuldades técnicas da época.
Mais tarde, em 23 de maio de 1599, Dom Francisco de Sousa Botelho de Albuquerque, o Morgado de Mateus, visita a região pela primeira vez, acompanhado de “grande e imponente séquito”, permanecendo lá por sete meses, quando funda na região um pelourinho e dá início à vila de Nossa Senhora do Monte Serrat.
Na segunda incursão, em fevereiro de 1601, recebe de Sardinha a doação de um dos fornos instalados no Vale das Furnas. Nesse mesmo ano, em 19 de julho, o governador, em regimento passado ao capitão Diogo Gonçalves Lasso, concede aos Sardinha exclusividade na exploração de minas. O mesmo documento impedia, com exceção do velho e do moço, a descoberta de novas jazidas.
Em 1602, o governador passa a administração do engenho ao filho, Dom Antônio de Sousa, e o Governo Geral do Brasil, a Diogo Botelho. Na época, Dom Antônio tenta retomar as atividades da fundição, desta vez, em sociedade com o cunhado, Diogo de Quadros. Entretanto, as novas tentativas não vingaram devido à exploração de minas de ouro em Apiaí e Paranapanema.
Dom Francisco, que havia viajado à Espanha para conseguir mais influência, retornou ao Brasil em nova investidura: Governador das Capitanias do Sul e Administrador das Minas do Brasil. No seu segundo governo, em 1609, depois de ter se dirigido a São Paulo, seguiu para Araçoiaba, na companhia de Cornélio Arsing (referenciado como Cornélio Arzão, Arzam, Arzon ou Darzan). Engenheiro de minas, fundidor e mecânico, Arsing recebe o desafio de construir os engenhos da mina (os segundos) que pararam de funcionar com a morte do governador.
Posteriormente, o empreendimento troca novamente de mãos: vai para a administração de Francisco Lopes Pinto, cavaleiro fidalgo da Casa Real, que morre em 1629. A falta de mão de obra capacitada para os trabalhos e o isolamento em relação ao povoamento são citados como razões para que a fundição fechasse.
Com o fracasso, muitos dos moradores mudam para os campos de Itavuvu (Itapeboçu), onde foi estabelecida a vila de São Felipe, em homenagem a Felipe III da Espanha e II de Portugal, com a transferência do pelourinho.
Em 1681, Luís Lopes de Carvalho, capitão-mor e ouvidor da Câmara de Itanhaém, tenta assumir para si a descoberta das minas, ordenando em nome da Coroa que se levantasse novo pelourinho e proibindo a extração de minério sem autorização régia.
Ele envia ao Conselho Ultramarino um pedido de consulta dizendo que “descobrira no termo da villa de Sorocaba as minas da Serra de Birasojaba”, na companhia de “Hyacinto Moreira Cabral e o coronel Paschoal Moreira Cabral”. Apesar de dizer que encontrara as minas, ele, no entanto, pede ao monarca que escreva aos irmãos para que esses as mostrem e cedam pessoas para auxiliarem frei Pedro.
Em 1682, o regente do Brasil envia uma missão oficial para investigar se havia recursos nas minas do sertão. Pedro Vaz de Barros acompanhou a expedição, designado por carta real de 2 de maio de 1682 (do rei Afonso VI, de Portugal, e de Dom Pedro, como consta no livro das cartas do Rio de Janeiro) para auxiliar Frei Pedro de Sousa na descoberta e exploração de ouro, prata e cobre. O padre, mais tarde, torna-se vigário da “Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária de Itú guassu”.
A iniciativa da exploração partiu de uma sugestão do capitão-mor de Itanhaém, e a expedição também contou com a participação dos Moreira Cabral.
É nesse ponto em que muitos dos registros publicados se contrariam. Também é aqui que os irmãos são, equivocadamente, ligados a Tatuí.
Em “Efemérides Brasileiras”, Paranhos (1938) menciona que Jacintho, o capitão Manuel Fernandes de Abreu e Martim Garcia Lombria (Lumbria) receberam autorização, por meio de carta régia de 5 de maio de 1682, para estabelecer fundições de ferro em Araçoiaba.
Leme (1976) registra, no entanto, que os irmãos penetraram ao sertão nesse mesmo ano para “fazerem os exames das pedras de prata e descobrimentos de minas de ouro”. Eles tiveram a companhia do frade Pedro de Sousa.






