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    Contra o silêncio que mata as mulheres

    O recorde histórico de feminicídios registrado no Brasil em 2025 não pode ser tratado como mais um dado em meio às estatísticas de violência. Quatro mulheres assassinadas por dia, em sua maioria por parceiros ou ex-parceiros, revela um cenário que, longe de ser episódico, expõe um padrão de relações atravessadas por controle, medo e brutalidade crescente.

    Em artigo divulgado à imprensa, Danda Coelho, idealizadora do movimento Mulheres Cuidando de Mulheres, ajuda a iluminar esse contexto com a clareza necessária: “o feminicídio é o capítulo final de histórias que começaram muito antes, em vínculos marcados por abusos naturalizados”.

    Ao afirmar que “o feminicídio não começa no dia do assassinato”, Danda desloca o foco da tragédia isolada para o ciclo silencioso que a antecede.

    A violência, lembra ela, é construída aos poucos, corroendo a autonomia, o senso de valor e a liberdade da mulher. Esse processo não é sempre visível: ele se manifesta em ciúme excessivo, posse, isolamento, desqualificação sistemática.

    Muitas dessas relações, como ressalta a autora, funcionam como “bombas-relógio” – aparentemente estáveis, mas alimentadas por desequilíbrios emocionais e de poder que, em algum momento, podem explodir.

    Essa perspectiva é fundamental para romper com leituras simplistas que culpabilizam a vítima ou reduzem o feminicídio a “casos extremos”. Permanecer em “relações tóxicas”, como aponta Danda, “não é fraqueza individual, mas reflexo de uma estrutura social que ainda cobra silêncio, tolerância e autoacusação das mulheres”.

    Quando a violência é invisível – moral, psicológica, patrimonial –, ela produz um sequestro da percepção: a mulher passa a duvidar de si mesma, acredita que exagera, que provoca, que “merece” o que vive. Esse terreno subjetivo é onde o agressor encontra espaço para perpetuar sua conduta.

    Trazendo esse diagnóstico, Danda Coelho aponta algo que vai além da indignação moral: um caminho de enfrentamento concreto. O movimento Mulheres Cuidando de Mulheres, ao trabalhar com acolhimento, orientação e conscientização, atua justamente na fase em que muitas histórias ainda podem ser reescritas.

    A ideia de que “coragem se constrói em rede” é mais do que uma frase de efeito; é um princípio de política pública e de cidadania. Mulheres que encontram escuta qualificada, informação e apoio conseguem enxergar saídas que, sozinhas, pareciam inacessíveis.

    É fundamental, portanto, reconhecer e apoiar a posição defendida pela autora: o silêncio não pode mais ser romantizado como estratégia de proteção. Historicamente, “permanecer calada” foi algo imposto às mulheres como mecanismo de “preservar a família”, “evitar escândalos”, “não destruir a vida do outro”.

    A realidade, como mostram os números, é oposta: o silêncio protege apenas o agressor e prolonga o ciclo de violência. Falar, pedir ajuda, registrar ocorrência, buscar a rede de proteção são atos de preservação da vida.

    Há aqui uma responsabilidade coletiva que não pode ser terceirizada para as vítimas nem para os órgãos de segurança. Como Danda enfatiza, “tratar feminicídios como tragédias individuais impede mudanças estruturais”.

    É preciso olhar para esses crimes como resultado de uma cultura que ainda tolera piadas misóginas, minimiza agressões psicológicas, relativiza controles e ameaças veladas.

    “O enfrentamento exige informação, responsabilização efetiva e, sobretudo, uma mudança profunda na forma como a sociedade enxerga relações abusivas”, defende a advogada.

    Essa discussão também interessa diretamente a cidades como Tatuí, que se afirmam como polos culturais e turísticos. Uma comunidade que busca se projetar para o futuro – ainda mais às vésperas de um bicentenário e no primeiro ano como estância turística – reconhece que desenvolvimento passa também por um compromisso ético com a integridade de suas cidadãs.

    Ambientes culturais e turísticos seguros, comprometidos com o respeito às mulheres, são parte da imagem que qualquer cidade responsável deseja construir.

    Reconhecer o valor do trabalho de iniciativas como Mulheres Cuidando de Mulheres vai, portanto, na mesma direção dos avanços que Tatuí vem colecionando em outras áreas.

    Assim como a cidade se mobiliza para restaurar seu patrimônio, qualificar sua programação cultural e fortalecer o turismo, é necessário investir em redes de apoio, formação de profissionais, campanhas permanentes e espaços de acolhimento – ações que já têm sido propostas e outras tantas já em atividade consolidada, como o programa do Botão do Pânico, por exemplo.

    Estatísticas nacionais tão duras lembram que nenhuma cidade está imune à violência de gênero – e que enfrentar o problema com seriedade é também uma forma de qualificar o tecido social.

    Danda Coelho observa e reitera a importância, nesse sentido, de se “recusar a normalização de relações abusivas”. Não se trata de alarmismo; trata-se de encarar a realidade.

    Enquanto houver mulheres vivendo sob ameaça, diminuídas, controladas e desautorizadas em sua própria percepção, o risco continuará latente. Romper o ciclo antes da explosão é, como bem diz a autora, o único caminho para impedir que os números continuem a crescer.

    Que este seja, portanto, um compromisso público: ouvir o alerta, fortalecer redes de apoio, divulgar canais oficiais de atendimento e, sobretudo, abandonar definitivamente a indiferença.

    O combate ao feminicídio não é pauta de um grupo, mas desafio de uma sociedade que se pretenda minimamente justa – e de toda e qualquer localidade que queira, de fato, ser lugar de vida plena para todas as mulheres.