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    Paschoal Moreira Cabral, a Senhora del Populo e o mito sobre o fundador

    Registros oficiais e inventários antigos ajudam a entender e explicar tradição

    Vista do Largo de São Bento e Igreja de Sant’ana, em Sorocaba no ano de 1860, onde se encontra a capela-mor com os restos mortais do paulista Paschoal Moreira Cabral (o pai), falecido em 1690. A cronologia sugere uma revisão geográfica: embora tenha fundado a Capela do Pópulo em 1679, o coronel explora o Morro de Araçoiaba apenas em 1682, o que indica que a ermida original não se situava em Ipanema, mas possivelmente em Itapeva ou Bacaetava - localização que explicaria a formação do povoado de Tatuhú, distinta da origem da atual Tatuí. O segundo Paschoal (o filho), sorocabano, nasce em 1685 e morre em 1725 em Cuiabá. (Foto: Militão de Azevedo, 1860. Acervo Biblioteca Mário de Andrade)

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    A demarcação do rócio em 11 de agosto de 1826 representa o fim de um epílogo que é anterior e mais complexo. As origens dos fatos conflitantes envolvendo a história da cidade remontam à transferência do santo padroeiro – original – da paróquia de São João do Ipanema para os campos de Tatuí. Fato esse que se emaranha nas narrativas como ocorre com o nome dos irmãos Moreira Cabral, por ocasião da exploração do morro de Araçoiaba.

    Paschoal Moreira Cabral – o segundo – é recorrentemente mencionado como fundador de Tatuí por autores e instituições. Entre eles, Viveiros (2014), que, ao recontar a história de Santana de Parnaíba, apresenta textualmente essa informação. Conforme ele, o núcleo urbano da cidade teria se originado “nas vizinhanças de Nossa Senhora del Popolo”, na época, distrito de Sorocaba.

    O IBGE registra que “a faixa de terra hoje pertencente à cidade” fora desmembrada desse agrupamento, localizado em Araçoiaba da Serra e estruturado com a implantação da fábrica de ferro. A mesma referência é dada pela prefeitura de Tatuí e pela lei municipal nº 451, de 11 de agosto de 1959 (em seu artigo 3º), que oficializa o Brasão de Tatuí.

    Azevedo Marques, historiador, geógrafo e autor de importantes obras sobre a história de São Paulo, atribui ao paulista, irmão de Jacintho Moreira Cabral – e não ao sorocabano – a fundação da capela da Senhora del Populo, e, à essa, a origem da atual cidade, invocando a tradição.

    Embora contenham dados factuais, todas essas referências, dada a fragmentação e a irregularidade dos relatos, confundem mais que esclarecem. Para desenrolar esse novelo, emaranhado pela escassez dos registros oficiais, é necessário voltar no tempo e recorrer à árvore genealógica de Braz Esteves, português cujos descendentes se ligaram à ocupação do sertão paulista.

    Paschoal Moreira Cabral – o primeiro –, paulista que participou da incursão às serras de Caativa e Biraçoiaba, na companhia do irmão e de outros bandeirantes, com a missão de examinar pedras de prata e descobrir minas de ouro, era genro do terceiro Braz, cujo nome foi abreviado para Teves.

    O primeiro nasceu em Funchal, capital da Região Autônoma da Madeira, em 1520. Mudou-se com os sogros (Pedro Leme e Luzia Fernandes) e a mulher (Leonor Leme) para São Vicente. Com ela, teve os filhos: Pedro, Mateus, Aleixo, Lucrécia e Braz Esteves Leme. A união do casal é confirmada a partir de inventário realizado em janeiro de 1633.

    No litoral, o patriarca fez fortuna, tendo parte no engenho de São Jorge dos Erasmos. Anos depois, mudou-se com a família para São Paulo, onde se manteve influente junto ao governo.

    O segundo Braz teve 14 filhos com diversas mulheres do gentio da terra. Faleceu em 1640, sem nunca ter casado. Sobre esse acontecimento, a informação trazida por Almeida (1952) contrasta com a data da morte. O autor registra que esse Braz – o pai de muitos bastardos – teria falecido em 1678.

    Conforme ele, esse descendente residira, antes de 1660, no campo de Itapeva. Lá, possuiria propriedade com curral vendida ao padre Guilherme Pompeu de Almeida, chamado de creso parnaibano, por conta da fortuna acumulada.

    Se a data da morte do segundo Braz fosse essa, a ação judicial não seria realizada para a divisão da herança do irmão, mas, sim, do pai. Pedro e Lucrécia Tevez conseguiram o direito de serem declarados “herdeiros legítimos e universais” do irmão, em razão de suas “nobrezas”.

    A sentença foi anexada aos autos do inventário do segundo Braz, que morreu no sertão de Jaraguá, no 1º Cartório Judicial e Notas da cidade de São Paulo. De acordo com Leme (1984), o finado era “muito abastado de bens, com grosso cabedal de dinheiro amoedado”, proveniente do ouro extraído na mesma serra descoberta por Affonso Sardinha em 1597.

    É o terceiro Braz, um dos descendentes mamelucos do segundo, que “se afazenda” em Itapeva, com a esposa Antonia Pinta, a filha deles, Mariana Leme, e o genro, o primeiro Moreira Cabral. O irmão do coronel, Jacintho, transfere-se junto, mas em propriedade situada entre a “Terra Vermelha e Ipanema”.

    Nessa época, Itapeva era um bairro de Sorocaba com 20 fogos e “cento e poucos moradores livres”. A mudança ocorreu em 1654. Neste ponto é que a história de Tatuí se aproxima da narrativa criada em torno dos irmãos exploradores.