Lugar-comum

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Tem um negócio chamado “lugar-comum”, o qual, diferentemente do que parece, não indica nenhuma localização, mas um conceito de linguagem. Não é ferramenta de GPS, sendo melhor encontrado em dicionários.

Basicamente, representa tudo aquilo que as pessoas repetem indistintamente no dia a dia – não raro sem a devida atenção ao que estão ecoando. Inadvertidamente, pensam estar na moda, “falando chique”, quando, na verdade, a prática tem mais a ver com a verborragia da família psittacidae – popularizada pelos tão encantadores papagaios.

Ao longo do tempo, inúmeros lugares-comuns se tornaram motivo de piada, embora, ainda assim, demorando a cair em desuso. Casos de “a nível de”, “problemática”, “via de regra” etc. (Alguns, até, se retirados da frase, não fazem qualquer diferença).

Como a língua é dinâmica, porém, quando começam a incomodar muito, tamanho o uso generalizado e sem critério, acabam tornando-se “bregas” – aliás, como os próprios termos “brega” e “chique”. Naturalmente, então, acabam desaparecendo do linguajar rotineiro.

Interessante reportagem do jornal “Folha de S. Paulo”, publicada neste início de ano, apontou algumas palavras e atos que “deveriam ser enterrados em 2017”. Entre estes, as expressões “top”, “beijo no coração”, “gratidão” e, o mais “badalado” e, consequentemente, banalizado de todos: “empoderamento”.

Registra a reportagem: “O que houve com o clássico e elegante ‘obrigado’? Foi atropelado por ‘gratidão’, palavra usada além da conta em 2017 para expressar agradecimento, quase sempre seguida do “emoji” com as duas mãozinhas juntas. Chega de ‘gratidão’ em 2018. Não da atitude, claro, da palavra”.

A reportagem ouviu especialistas em ambiente corporativo, comportamento, comunicação e mídias sociais para eleger algumas expressões “que poderiam ser sepultadas neste final de ciclo, e também para apontar hábitos e atitudes capazes de ajudar o profissional a se destacar, em vez de ficar amarrado a um vocabulário limitado e lugar-comum”.

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Como primeiro exemplo aborda o bibelô linguístico de 2017: “Nas ruas e causas, vá lá. Mas ‘empoderamento’, usado no trabalho para quando é preciso delegar autoridade ou tomar decisões, é candidato à aposentadoria”.

“’Coach’, antes empregado só para técnicos esportivos e especialistas em gestão de carreira, virou festa: apropriado ou não, designa várias consultorias, de vida sexual até emagrecimento”.

E segue: “Muitas outras expressões foram vulgarizadas em conversa corporativa e redes sociais e tiveram seus significados desbotados”.

Ainda questiona o texto: “Será que, além de estar grato e empoderado, alguém aí abusou de clichês como ‘propósito’, ‘proatividade’ e ‘legado’?

Quem sabe se jogou nos estrangeirismos, enfeitando o perfil do LinkedIn com ‘networking’, em vez dizer que investe em uma boa rede de relacionamentos?”.

Entre os entrevistados e vários aspectos observados, o apresentador de TV Marcelo Tas comentou sobre o excesso de “propósitos”: -Propósito é uma palavra muito importante e que não pode faltar na vida das pessoas, mas passou a ser usada indiscriminadamente e perdeu o sentido.

Essas expressões, muitas vezes, começam nas redes sociais, alguns acham que basta repeti-las para se dar bem e, depois, isso gera uma verdadeira indústria”.

E mais, declarou: “Meu sonho é que consigamos montar uma espécie de reserva ecológica de palavras usadas no seu verdadeiro sentido, não como logomarca. Sustentabilidade é uma delas, no sentido de cuidar para que vivamos em uma sociedade mais sustentável”.

Outro entrevistado, o consultor da Integração Escola de Negócios, Fábio Eltz, argumentou: “Muita gente usa um vocabulário exagerado para se mostrar ‘antenado’ ou causar a impressão que tem mais erudição do que tem de fato.

Mas isso é uma bobagem, porque acaba passando a impressão de algo falso, e até pode tirar a atenção do interlocutor do que está sendo falado.

É algo que realmente incomoda.

Por que dizer ‘network’ se você pode dizer ‘trabalhar em rede’? Seja simples, básico, objetivo. Pense como a mensagem pode ser muito mais legal”.

Há “pérolas” também avaliadas pelo consultor: “Muitos saem dizendo por aí que são proativos, que querem agregar valor e que têm brilho nos olhos.

Mas não fazem a menor ideia do que isso significa e que essas são expressões que não precisam ser ditas, porque simplesmente se tornaram clichês”.

Ele ainda deixa alguns conselhos: “Não queira parecer que está no topo da moda ao dizer o que todo mundo diz. Deixe de lado expressões como ‘performar’, ‘quebrar paradigma’, meritocracia. Ao mesmo tempo, procure o refinamento nas palavras sem parecer artificial. Não exagere se não for natural”.

Finalmente, a professora da ESPM e sócia da FM, Fátima Motta, reconheceu: “Empoderamento se tornou uma das palavras mais usadas do ano de 2017.

Sim, é importante, já que precisamos reconhecer a nossa força e o resultado do que podemos construir. Mas isso não se faz custe o que custar. Cada um precisa entender a sua força e o seu poder e, então, fazer a diferença para a humanidade.

Não adianta repetir a todo momento ‘empoderado’ e não fazer ideia da razão daquele poder reivindicado”.

E, finalmente, o tal do “legado”: “É incrível que as pessoas pensem em ‘deixar o seu legado’, em como fazer a diferença. Mas não adianta buscar isso a qualquer preço sem antes entender quais são as suas forças e os desafios a serem superados”.

Junto a essa crise econômica inédita na história do país, que também fique para traz essa crise tamanha de blá-blá-blá e falta de originalidade. Que 2018 seja “desempoderado” de palavras vãs e muito mais eficiente em ações concretas e comunicação objetiva.

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