A reforma que falta

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A reforma da Previdência está caminhando. E parece que vão reformar a reforma Trabalhista… A reforma Tributária está em gestação e a primeira cabeça já rolou com o nome de Marcos Cintra. A reforma Política, irmã gêmea da Eleitoral, deve engatinhar devagarinho; ambas vão custar a andar.

É preciso muita negociação, grandes acertos e muitos cochichos no silêncio dos campanários. Os sinos ficarão quietinhos ouvindo discussões sobre voto proporcional, voto distrital, voto distrital misto, voto distrital puro, número de partidos, coligações…

Imagine você legislando pra você mesmo, de olho na sua própria reeleição! Os sinos silentes ouvindo tudo e os morcegos alçarão voos desesperados, perdidos na escuridão da noite.

E a reforma Agrária, a reforma da Segurança, a reforma do Ensino, a reforma dos Costumes?!…

Sei, como todos sabem, que em política, infelizmente, a astúcia sobrepuja a poesia, quase sempre. Até já ouvi dizer que a política é aética. Mesmo assim, conheci um poeta que foi prefeito de Campina Grande, governador da Paraíba e congressista. No crepúsculo da carreira, teve que se submeter à justiça penal. Não por corrupção, mas por tentativa de homicídio. Meno male!, segundo o humor negro italiano.

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A tendência habitual do ser humano é apontar os defeitos alheios. Madre Tereza de Calcutá dizia: “Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Jean Paul Sartre afirmava que “o inferno está sempre nos outros”. É de doer. Ninguém tira a trava do próprio olho…

E aí, prezados leitores e leitoras, que me honram com sua atenção, como é que ficamos frente ao incandescente debate sobre as tais “reformas”?

Vejamos um trecho da saudação póstuma do desembargador João Del Nero, do Tribunal de Justiça de São Paulo, ao professor Olavo Batista Filho, publicada no Diário Oficial do Estado no dia 9 de fevereiro de 1983: “Hoje, como há séculos, existem duas tradições quanto à reforma social – cuja necessidade ninguém, de mediana sensibilidade moral, pode negar. O problema é apenas este: ‘mudar o homem’, ou ‘mudar o exterior’; mudar os sistemas sociais injustos e desumanos, ou o homem que produz os sistemas.

Sem modificação do coração do homem, de onde provêm as injustiças, de pouco valor serão as reformas exteriores”.

Pura verdade.

E para encerrar este pálido texto, peço vênia para citar as palavras de monsenhor Fulton J. Sheen no capítulo I (“Frustração”) de seu extraordinário “Angústia e Paz”, editado no Brasil pela AGIR, em 1959, 7ª edição revista: “… Não há nada de realmente novo no mundo. Há apenas os velhos problemas acontecendo a gente nova. Não há diferença, exceto o da termologia, entre a alma desiludida de hoje e as almas desiludidas que se encontram no Evangelho. O homem moderno se caracteriza por três alienações: está separado de si mesmo, de seu próximo e de seu Deus”.

Que tal?, a reforma que falta…

* Nascido em Missão Velha, no cariri cearense, é procurador aposentado do estado de São Paulo. Tem poemas e crônicas publicadas em Portugal e na Argentina. Autor de diversos livros e colunista do jornal O Progresso.

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