Tatuí, 23 de Mai de 2017
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  • Ressurreição
  • Henrique Autran Dourado - em 20/04/2017 11:47:10

    A segunda sinfonia de Gustav Mahler (1860-1911), que leva o subtítulo acima, foi estreada em 1895 e é uma das obras-primas da humanidade. E com óbvia inspiração na idéia da maravilhosa “Sinfonia nº 9”, de Beethoven (1770-1827), datada de 1824 e que inovou trazendo um grande coral (“Ode à Alegria”, sobre um poema de Schiller) no último movimento. A obra de Mahler é um chamamento tão poderoso ao espírito que há quem garanta ter sido convertido ao ouvi-la, passando a crer na existência de Deus! E se ela, por si, já é uma maravilha de se ouvir, tocá-la em uma orquestra é uma experiência inigualável, em sua quase hora e meia de duração!

    Iniciada, em seu primeiro movimento, com um poema sinfônico do autor intitulado “Totenfeier” (Ritos Funerais), sua orquestração é tão grandiosa que pede, além do “maior número possível de cordas”, um exército de músicos no palco e em “off-stage” (ocultos, fora do palco): 4 flautas com piccolos, 4 oboés (3º e 4º alternando com corne inglês), 5 clarinetas (clarone, ou clarineta baixo), 4 fagotes (3º e 4º com contrafagotes), 10 trompas, 10 trompetes, 4 trombones, tuba, 7 tímpanos, sendo seis tocados por dois executantes no palco, e um fora dele, diversas caixas claras, 2 gran cassa (grande bombo sinfônico), 2 pares de pratos, sendo um fora do palco, 1 Glockenspiel (carrilhão), 3 tubular bells (sinos tubulares), 2 tam-tams, 1 grande órgão de tubos, 2 cantoras solistas (soprano e alto), 1 enorme coro misto e 2 harpas, aglomerado de uma pequena multidão de músicos que já impressiona só de se ver.

    O coro entra no 5º movimento com um emocionante poema, “Luz Essencial”, uma entrega do autor ao pó de onde veio, conforme o Eclesiastes 12:7. ”E o pó volte para a terra como o que era, e o espírito volte a Deus que o deu”. Diz o poema: ”Levantar, sim, levantar! / Você irá, meu pó / após um breve descanso! / Viverá eternamente! Viverá eternamente! / Aquele que o chamou lhe dará a vida eterna / você será semeado para novamente desabrochar / o Senhor da colheita virá e nos colherá – os frutos não morreram” (“Die Auferstehung”, de Friedrich Klopstock. Trad. Deise Voigt). Se há legendas eletrônicas que ajudam a entender a obra como um todo, como nas boas casas de ópera de hoje, o impacto é espetacular! Que conjunto perfeito de exaltação à figura divina, à vida eterna, à Ressurreição de Cristo!

    Uma apresentação inusitada foi feita pela Osesp da época de Eleazar de Carvalho em meados dos anos 1980. O poderoso empresário norte-americano Gilbert Kaplan desde cedo desenvolveu uma paixão obcecada pela obra-prima de Mahler. Na falta de tempo, e interessado apenas em devotar-se à sinfonia, Kaplan pagou aulas particulares com professores da JuilliardSchool, de NY. Objetivo: reger aquela sinfonia, projeto de sua vida. Não queria solfejo, teoria, contraponto, essas coisas, sua “idéefixe” era definitivamente a obra do alemão. Milionário, alugava o Avery Fischer Hall e pagava músicos para que pudesse treinar sua incipiente regência. Criou a Fundação Kaplan, que dava auxílio para estudantes de música e, claro, promovia a 2ª sinfonia de Mahler, que Kaplan estreou em público em 1982, gravando a obra, em 1987, com a Sinfônica de Londres. Em 1990, faria o mesmo com a Filarmônica de Viena. Sua estreia brasileira com a Osesp aconteceu ainda no início de sua carreira de uma só obra.

    Em São Paulo, Kaplan ocupou um andar inteiro do Hotel Sheraton com seu “staff”. Alugou carros e vans preparadas com equipamentos, câmeras, tudo o que tinha direito. Ele pouco ou nada falava para nós, músicos, apenas ensaiava. Parecia embevecido diante de um totem sagrado, sua partitura, que era algo peculiar: estranhando sua regência, alguns de nós subimos ao pódio, no intervalo do ensaio, e ficamos pasmos quando vimos papeizinhos autocolantes coloridos, do tipo “stick-on”, com algumas indicações marcadas. Entrada à esquerda, violinos, corte à direita, violoncelos, ataque ao fundo, tímpanos, e por aí vai. Resumindo, um regente que não sabia música, apenas vivia com sua vida e fortuna em função daquela obra. E mais: mesmo sem realmente ler partitura, apenas seguindo a silhueta das notas e seus papeizinhos, fez muito melhor do que muitos conhecidos “maestros” mundo afora! Movia-o a paixão desmesurada por aquela “Ressurreição”. Kaplan faleceu em 2016, talvez aguardando encontrar o autor de sua obsessão musical, Mahler, e almejando ressuscitar para juntar-se ao Senhor na vida eterna.

    Semana passada, tivemos a “Ressurreição de Cristo” no domingo a celebrar, após a angústia e a dor da Sexta-Feira Santa, e isso é motivo de júbilo para toda a humanidade. “No terceiro dia ele se reergueu conforme as escrituras”. Romanos, 1:3-4: “Seu Filho, que foi descrito de acordo com a carne e nomeado o Filho de Deus, conforme o princípio de santidade por sua ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Timóteo, 2:8: “Lembrem-se de Jesus, erguido da morte. Esta é a razão por estar sofrendo e acorrentado como um criminoso. Mas a palavra de Deus não está acorrentada”. Coríntios, 15:3-7: “Cristo morreu por nossos pecados, conforme as escrituras, foi sepultado, e reerguido no terceiro dia”.

    Você pode ver e ouvir o movimento final desta obra-prima da humanidade no Youtube, digitando “Mahler: Symphony No.2: Mov.5 – Part 4 of 4”, com o eletrizante Leonard Bernstein, em êxtase, e a London Symphony. Inebrie-se! Há vida indolor após a morte!