Tatuí, 23 de Mai de 2017
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  • Breve roteiro musical para um bebê
  • Henrique Autran Dourado - em 02/03/2017 16:22:19

    Diz-se que a formação da personalidade da criança se inicia quando ela vê a luz - “dar à luz”: entregar um bebê à claridade, em contraponto com o escuro anterior. Mas sabe-se também que ainda na gestação o bebê ouve, e bem. O obstetra francês Frédérik Leboyer, autor de “Nascimento sem Violência” (“Pour une Naissance sans Violence”), pregava o parto mais suave possível: dentro de uma pequena banheira, de forma a se minimizar a transição do líquido amniótico para o contato direto com o ar. Houve ainda quem agregasse sons absolutamente suaves: um bem agudo, semelhante ao do sistema nervoso, e outro grave, como o do circulatório da mãe, para a melhor passagem do ventre materno para o mundo exterior.

    No berçário, esses sons teriam feito, segundo os cientistas, a suave viagem entre o mundo da placenta e o externo. Outros experimentos foram realizados, e os resultados surpreenderam: no Canadá, pesquisadores separaram recém-nascidos em três grupos. Um que ouvia Mozart, outro que escutava coisas bem mais simples (medievais, por exemplo) e um grupo “placebo”, que não ouviu nada.

    Depois de algum tempo, os três grupos ficavam juntos, e ao escutarem a música mais simples, a renascentista, o segundo grupo, que a ouvira, reagiu como se reconhecesse aqueles sons, mas sem muito entusiasmo. Os bebês que ouviram Mozart pareciam reagir com vivacidade à música, enquanto o grupo “placebo” (que ficou no silêncio) demonstrava certa indiferença em geral. Mas quer dizer que os bebês reconhecem Mozart? É mais ou menos por aí. Outro experimento, em uma granja nos EUA, revelou que galinhas poedeiras produziam mais ouvindo Mozart do que as que não ouviam nada. Crianças expostas ao som de Mozart por um período de tempo mostraram resultados melhores em testes de QI do que, em geral, as que não ouviram nada.

    Minha filha mais velha, Marta, ouviu Mozart pelos headphones encostados na barriga da sua mamãe; depois de nascer, foi por um aparelho que levei para o quarto. E assim tem sido em sua vida inteira, agora doutorando-se em música em Londres, onde nasceu meu netinho Tommy – este, efeito do próprio ambiente doméstico, também mostra certo entusiasmo por músicas bem complexas, como o romântico Brahms, chegando a acompanhar a 1ª sinfonia do alemão com gestos cadenciados, como se regesse. É bom nunca subestimar a audição de um bebê, e penso novamente em minha filha quando lembro que ela, antes mesmo de falar, cantarolava coisas simples como “Terezinha de Jesus” sempre na tonalidade em que aprendeu, ré menor!

    É de se perder de vista o número de experiências feitas com música, especialmente Mozart. Chamado “o predileto dos deuses” foi um prodígio que se apresentava para a nobreza aos cinco anos, idade em que compôs suas primeiras peças, daí em diante transbordando produção. E sua música é uma inconfundível trama plena de mistérios.

    A boa música exige um raciocínio interior involuntário cujos efeitos são estudados de há muito, mas não há conclusões comprovadamente definitivas. Médicos que ouviam um suave Mozart durante o trabalho estressante de cirurgias complexas apresentavam batimentos cardíacos menos acelerados, demonstrando que os cirurgiões ouvintes da boa música ficavam menos tensos.

    Outro dia, uma amiga que toca e leciona flauta relatou que uma criança, sua aluna, fazia tratamento psicológico e que sua mãe tinha começado a introduzir a música de Mozart em casa, por conselho - sábio! – da terapeuta. E logo sentiu o resultado em suas aulas de música! A musicoterapia tem feito avanços nesse sentido. O bardo Shakespeare dizia que o homem que não gosta de música não merece confiança, em uma versão medieval para o nosso “quem não gosta de samba / bom sujeito não é / é ruim da cabeça / ou doente do pé”. Agressões físicas são relativamente comuns em escolas públicas e particulares, mas em minha vida dirigindo unidades de música (desde 1989!) nunca vi uma cena de violência acontecer. Isso quer dizer alguma coisa, porém, como já disse, apenas constato, não consigo explicar.

    Claro, um fator de suma importância é a qualidade da música. Se obras clássicas ou música popular da melhor qualidade se traduzem em crianças mais sadias, as que ouvem a pior “música” em alto volume e ruídos “bombando”, têm o batimento cardíaco mais acelerado, e costumam ser mais agressivas. Estudos sobre excesso de ruídos e alto volume já constataram, de órgãos da Saúde às universidades de todo o mundo, o “Pair” (Perda Auditiva por Indução de Ruído), dano neurossensorial irreversível, estresse, doenças coronarianas, desempenho mais fraco nos estudos ou no trabalho, hipertensão, mau humor e insônia, entre outros. Já uma boa música mais suave, seja ela clássica, MPB ou um rock de boa qualidade, ajuda a tornar as pessoas mais alegres, sociáveis, educadas e calmas.

    O exemplo vem sempre de casa. Seus filhos são o que você ouve e o que você assiste na TV. Se seguem o que ouve na rua, o lar serve de contraponto, ao menos, como saudável refúgio. O costume cria o hábito e leva ao bom gosto, e o som, como parte desse ambiente, afeta o comportamento para melhor. Um local de trabalho silencioso ou com música suave induz a maior produtividade. Proteger o meio ambiente não é só defender a natureza e a pureza do ar e da água, é também evitar poluição sonora. Todos seus efeitos nocivos afetam a vida e o bem-estar dos cidadãos. Ou para o bem, como a boa música, desde que nascem.