Tatuí, 23 de Mai de 2017
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  • Guerra declarada
  • Marco Antônio Barbosa * - em 15/02/2017 15:37:33

    Saques à luz do dia, tiroteios e mortos. Este não é o cenário da guerra da Síria e sim do Estado do Espírito Santo nos últimos dias. Cabeças cortadas não são atos somente de terroristas do Estado islâmico, mas imagens repetidas nos noticiários durante as rebeliões nos presídios em todo o país.

    Extermínios, como em regiões da África, fantasiados de chacinas em Porto Seguro, na Bahia. O que os números já alertavam, agora ganham as ruas das grandes cidades, de norte a sul. A criminalidade declarou guerra contra um Estado falido e está ganhando a batalha.

    Segundo os dados do 10º “Anuário Brasileiro de Segurança Pública”, divulgados no fim do ano passado e que refletem 2015, uma pessoa é morta no Brasil a casa nove minutos. O problema não é tão recente, mas por que somente agora parece que o caos existe?

    A criminalidade sem limites sempre ficou às margens da sociedade, escondida embaixo do tapete. Quando se vê os números, não se sente na pele, e consequentemente, não se cobra soluções.

    Assim como em outros setores, a má gestão do dinheiro público demora em aparecer, mas não deixa de apresentar a conta. Em casa, se você gasta mais do que recebe ou com as coisas erradas, é possível viver por um período no vermelho ou de cartões de crédito, entretanto uma hora a cobrança chega.

    Sem investimento em infraestrutura, inteligência e em profissionais, as polícias se enfraquecem e se omitem. Com isso, o crime organizado ganha espaço e se fortalece.

    Mais do que uma crise pontual, deve-se analisar de forma macro. A ausência do Estado não é somente em segurança, mas em educação, moradia, saneamento básico, oportunidades de emprego.

    Tudo isso contribui muito para o cenário atual. Sem chances de um futuro, o crime surge como a única opção para colocar comida na mesa e crescer na vida. Vira um plano de carreira. Não é de hoje e não será resolvido de um dia para o outro.

    O Exército como forma de conter a violência é somente um paliativo e não pode ser visto como a solução. Para um caso de emergência, servem como tampão, mas é necessário rever todas as políticas públicas a fim de frear a criminalidade crescente.

    A incompetência do estado e a corrupção intrínseca em todo o sistema precisam ser denunciadas e combatidas incessantemente. O fundo de poço sempre será mais abaixo se não cortamos o mal pela raiz.

    É importante entender que dos dois lados do ciclo vicioso da violência está a população. Se não cobra atitude dos governantes, não vigia suas atitudes e não vota de forma correta, no fim é a própria que tem de conviver com os problemas e pagar a conta. É preciso ter a noção de que o público é de todos. Temos de zelar pelo nosso bairro, comunidade e cidade como se fosse a nossa casa.

    Vivemos por anos fingindo que a violência não é aqui, que guerra só existe no Oriente Médio. Precisamos sair desta cortina de fumaça. A batalha está nas ruas e precisa ser enfrentada por todos. Mudar o canal da sua televisão não vai evitar que a sua casa seja roubada. Ou a população cobra ações efetivas dos governantes, ou seguiremos derrotados. O exército somos nós.

    * Especialista em segurança e diretor da Came do Brasil. Possui mestrado em administração de empresas, MBA em finanças e diversas pós-graduações nas áreas de marketing e negócios.