Tatuí, 24 de Abr de 2017
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  • Eu escalei o Pinheirão!
  • Luiz Antonio Voss Campos - em 24/12/2016 11:32:24

    foto: Arquivo pessoal foto: Arquivo pessoal foto: Cristiano Mota

    Bom, ela é uma árvore que está plantada há muito tempo em uma das praças centrais da nossa cidade. Durante 11 dos 12 meses do ano, ela fica ali, imóvel, sem muitos atrativos, calada e vendo a cidade crescer ao seu redor.

    Novos bairros, novas e muitas casas, novos moradores. E a cidade cada vez mais veloz e mais espalhada. Mas, nada como o tempo para nos lembrar dos inesquecíveis Natais.

    Ela chegou a ter a altura de 35 metros e ficou conhecida, colocando Tatuí no cenário mundial como a cidade que tinha – e teve – a maior árvore de Natal do mundo.

    Agora, vocês imaginem que eu morei durante 37 anos ali, na rua Santa Cruz, a poucos metros da praça Martinho Guedes, que é o seu nome oficial. Porém, como no centro dela tem uma imagem gravada “Panteão de Tatuí”, o espaço público ficou popularmente conhecido como a Praça da Santa.

    E, a cada Natal, uma nova história e uma nova esperança para todos nós surgem. Todo mês de dezembro, quando suas lâmpadas são acesas, surge uma magia que atrai ao seu redor famílias inteiras, pessoas de toda a região, namorados e crianças que ali ficam como que hipnotizados pelo brilho das cores.

    Cada lâmpada é como se fosse um pedido para que o Menino Jesus renasça em cada lar e em cada ser humano e o estimule a se preparar para um Natal mais fraterno e duradouro.

    E, neste clima de esperanças, o “bom velho” surge no trenó em cima das nuvens. Traz o sonho para todas as crianças, mesmo que seja em uma bala ou um pirulito que alguém jogou ou entregou para ela! E haja fotos com máquinas, celulares e, agora, “selfies”.

    E, de repente, eu pensando nessa história, na árvore de sonhos e esperança, acabei encontrando com o meu primo. Ele me contou que foi o primeiro homem a subir e enfeitar essa árvore no tempo em que ela era considerada a maior do mundo.

    Para nos contar um pouco dessa história, com vocês: Odil Euclides Antunes.


    Nasceu onde e em que dia?

    Em Tatuí, no dia 11 de julho de 1935.


    Como surgiu essa ideia de escalar o Pinheirão e enfeitá-lo para o Natal?

    Nós fazíamos parte de um clube aqui, o Clube 17, formado por jovens. Atualmente, os membros que restaram estão um pouco menos jovens. E surgiu uma ideia, que foi dada pelo senhor Sílvio Azevedo. Ele sugeriu que aproveitássemos a árvore do jardim para iluminarmos o Natal.

    O Clube 17 pegou essa ideia e, com muito trabalho, muita paciência e ajuda, realizou a tarefa. Todos participaram da confecção, mas coube a mim subir na árvore, com mais alguns amigos, para estendermos os festões natalinos.

    Em que ano o Pinheirão foi enfeitado pela primeira vez?

    A árvore foi enfeitada em 1956.


    Como foi para vocês ver o primeiro Natal enfeitado?

    Foi interessante. O clube não tinha verba, dinheiro para iluminar. Então, tinha que ter ajuda de alguém. Resolvemos sair pelas ruas e pedir ajuda ao povo, para que as pessoas doassem uma lâmpada colorida para podermos iluminar. Através de algumas pessoas, conseguimos os cabos elétricos, e, por intermédio da empresa de luz, os eletricistas para que pudessem fazer a ligação.

    Quando pedíamos as lâmpadas, as pessoas davam as comuns, incandescentes. Mas, nós queríamos as coloridas. Mesmo assim, tínhamos que aceitar.


    Por quantos anos você enfeitou a árvore?

    Por vários. Para colocar os enfeites, eu tinha que sair “fora da copa”, porque a árvore tinha 35 metros de altura. Fazia isso para amarrar os festões, de modo a prendê-los para puxá-los para cima e depois colocá-los no Pinheirão.

    O Orlando Bastos, um amigo meu e que hoje é falecido, ficava embaixo da árvore para ajudar.


    Você sentiu medo?

    Foi tranquilo porque a árvore não é difícil de escalar. Os galhos do Pinheirão formam uma espécie de escada. Por serem retos, na horizontal, e perto uns dos outros, eles permitem subir. Era, mais ou menos, como uma escada que você ia rodeando, dando voltas no tronco da árvore até chegar lá em cima.


    Na época, quantas lâmpadas foram colocadas?

    A árvore tinha 35 metros e nós colocávamos um festão, um cabo de luz elétrica por metro. Cada festão tinha 33 lâmpadas. Então, eram quase mil lâmpadas.

    Quanto tempo vocês levaram para enfeitar pela primeira vez?

    Uma semana, mais ou menos, de trabalho diário, foi suficiente para que conseguíssemos iluminar a árvore. Para fazer os festões, nós conseguimos algodão na fábrica de fiação Santa Izabel e na Santa Adélia. Na Campos & Irmãos, conseguimos as cordas. Preparamos os enfeites no barracão onde, atualmente, funciona a Coop, que pertencia ao senhor Camilo Vanni (já falecido). Ele nos cedeu o espaço para que fizéssemos os festões ali e preparássemos tudo.


    Depois de você, outras pessoas subiram na árvore?

    Somente eu e o Orlando Bastos subíamos. Muitos tentaram, mas não chegaram nem na metade porque achavam que era muito alto e tinham medo. Mas, nós, não.

    Para subir, tínhamos uma cinta que a Companhia de Luz e Força emprestou. Nós a passávamos na cintura e amarrávamos um pedaço no tronco da árvore. Então, podíamos ficar com os braços livres para trabalhar e montar os enfeites.


    Odil, o Natal de antigamente é diferente dos atuais?

    É muito diferente. O Natal era uma festa; hoje, é um comércio. Nós sempre víamos pessoas que iam até o Pinheirão para comemorar.

    O Natal de antes era mais “honesto”. Hoje, ele é completamente diferente, é mais a parte comercial. As pessoas nem falam muito em ganhar presentes. Antigamente, todos esperavam o Natal porque queriam ganhar algo. Faziam os pedidos e esperavam. Hoje, as pessoas já ganham presentes durante o ano inteiro e não há mais sentido.


    Quais tipos de enfeites havia no Pinheirão?

    No primeiro ano, fizemos da seguinte maneira: resolvemos enfeitar com os mesmos elementos de uma árvore comum de Natal. Então, achamos por bem colocar espelhos. Eles foram usados para que a árvore produzisse reflexos durante o dia.

    Amarrávamos os espelhos e pendurávamos. Colocamos, também, os festões de algodão, as lâmpadas coloridas e caixas de papelão vazias que enrolávamos em papel colorido e pendurávamos nos galhos, para imitar pequenos presentes.

    Em volta da árvore, no chão, nós colocamos um alambrado para cercarmos o Pinheirão. A grade era parte de um cercado da Associação Atlética XI de Agosto que havia sido derrubado. Com ele, nós conseguimos separar o povo da árvore.

    Também pusemos palha de arroz aos pés da árvore para enfeitar. Depois de tudo pronto, fomos tomar um refresco e descansar. Na época, o chão não tinha cimento, era terra. Ficou muito bonito, mas deixamos ali.

    Quando deu umas 18h, houve uma chuva torrencial que levou toda a palha de arroz até para perto do Conservatório. Ficou o barro pronto para o pessoal pisar para ver a árvore.

    Outra curiosidade: a mureta de cimento que envolve a base do Pinheirão foi construída pelo falecido prefeito Olívio Junqueira. Ele cobriu o espaço depois da nossa iniciativa e colocou água e alguns peixes. Na época, uns diziam que a árvore iria sofrer muito, porque não iria ter mais umidade para absorver.

    Depois de um tempo, fizeram uns buracos e colocaram uma grade para que a água infiltrasse. Mas, infelizmente, um raio cortou a árvore e ela está do tamanho que ela está hoje, 60 anos da primeira vez que nós colocamos os enfeites nela.


    Atualmente, as crianças estão cada vez mais envolvidas com a internet. Por conta das tecnologias, elas abandonam muito cedo as bolas, os cavalinhos, os caminhões, as bonecas que cantam e que falam “mamãe”.

    Elas querem celulares, tablets, equipamentos que facilitem tudo. Mesmo assim, nesta época do ano, os mais novos sonham e aguardam um velho de vermelho que vai entrar pelo vitrô do banheiro. Na noite de Natal, a esperança e o sonho superam tudo.

    Bem, com ou sem panetones e champanhes e grandes comilanças desnecessárias, festeje o Natal ao seu modo. E que esse sentimento de amor, fraternidade, carinho, paz, amizade e de outros adjetivos que revelam o bem para todos seja duradouro.

    Para encerrar essa conversa, quero aproveitar a versão de uma música do Beatle John Lennon e sua esposa Yoko Ono, gravada em 1961, chamada “Happy Xmas” (“War is Over)”.

    Mesmo com o sentido não correspondendo do inglês para o português, o compositor brasileiro Cláudio Rabello deu uma roupagem bonita, a cantora Simone e a banda Roupa Nova gravaram e o Brasil todo canta com o coração:


    “Então é Natal, o que você fez

    O ano termina e nasce outra vez

    Então é Natal, a festa cristã

    Do velho e do novo, do amor como um todo

    Então é Natal, pro enfermo e pro são

    Pro rico e pro pobre num só coração

    Então bom Natal, para o branco e para o negro

    Amarelo e vermelho para paz afinal

    Então bom Natal e um Ano-Novo também

    Que seja feliz quem souber o que é o bem”


    E foi com essa música que nós encerramos o show do Zé Emílio & Voss no coreto da Praça da Matriz no último dia 8 de dezembro, Dia da Padroeira de Tatuí, quando uma grande quantidade de amigos aceitou o meu convite e subiu de mãos dadas numa demonstração de amor e paz para cantar o refrão comigo.

    Foi inesquecível, e ali iniciou o Natal e o coreto flutuou. E, para terminar, quero desejar que o seu Natal e o seu Ano-Novo sejam inesquecíveis para você e seus familiares! Também comece pela sua rua e vizinhos! Muito obrigado a você que lê meus textos, e vamos continuar juntos amando, lutando, sorrindo e alegrando nossa Tatuí, a Cidade Ternura e Capital da Música. Continue sorrindo, até breve, boas festas, muito obrigado Tatuí, um beijo Voss.