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  • Uma força viva
  • A VOZ DO VOSS (Luiz Antonio Voss Campos) - em 25/06/2016 08:25:42

    foto: Cristiano Mota

    Nosso entrevistado desta semana é o professor Acassil, pessoa que conheço desde a minha infância, talvez, por também ser da família Camargo, parente da minha mãe, Maria Aparecida Voss de Camargo, a qual, depois que casou com o meu pai, professor Diógenes Vieira de Campos, teve o sobrenome mudado para Voss Campos.

    Além desses laços familiares, sempre o admirei por ser um ser humano presente e participante da vida da cidade – uma força viva. Na minha linda e rica infância, quando morava na rua Santa Cruz, ia sempre à casa do senhor Sílvio Azevedo, aonde o nosso homenageado também ia e ficava na marcenaria, fazendo brinquedos de madeira. Uma fábrica de sonhos, localizada na rua Coronel Aureliano de Camargo, hoje Unimed.

    Talvez pelo seu espírito de pessoa que voa mesmo sem sair do chão, gostava de fabricar aviõezinhos de madeira. Fazia um furo na asa, colocava um barbante, e pronto. Era só ir para um espaço aberto, girá-lo e o nosso pensamento voava junto. E ele nos dava de presente.

    Mas, a sua história nesta cidade é muito importante. Por isso, resolvi conversar com ele (que me confessou nunca ter dado entrevista para ninguém, eu fui o único).

    Nome completo, data e local de nascimento.

    Acassil José de Oliveira Camargo, nascido em 6 de outubro de 1933, em Tatuí.


    Seu nome é formado pela junção dos nomes de seus pais, o professor Acássio Vieira de Camargo, patrono de uma escola na vila São Cristóvão, e sua mãe, Sílvia. Daí, surgiu Acassil. O que mais recorda de seus pais?

    Acassil – Eles eram muito calmos. Bastante, até. Eu sempre fui bem tratado. Desde pequeno, papai sempre me ensinou a pintar, e mamãe me fazia um monte de coisa. Duvido que alguém tenha sido tão bem educado como eu fui.


    Por ter nascido em berço de professores, o senhor também tomou gosto por essa profissão, ou se viu educador por conta das circunstâncias?

    Acassil – Esse negócio de professor é muito engraçado, viu? Eu estava no 3º colegial, e o professor Celso de Mello, que lecionava desenho, me indicou para ser professor, inclusive, da minha turma. Isso foi por volta de 1951, 1952, e uma loucura.

    Vieram dois inspetores de fora, um estadual e um federal, mais um de Tatuí, que era o senhor Sílvio Azevedo. Eu me assustei, porque o Augustão chegou para mim e falou que era para ir à diretoria. E lá era fogo. Se alguém fosse para a diretoria, estaria desgraçado. Mas, tomei coragem e fui para lá.

    Quando cheguei, vi que todo o pessoal estava lá, além de papai. Comecei dizendo que não sabia o que tinha feito. Mas, eles me explicaram do que se tratava. E aceitaram, desde que eu desse aulas para eles assistirem. Fiquei uma semana lecionando para eles. Depois, virei professor.


    Que matéria o senhor lecionava e quais as escolas por onde o passou?

    Acassil – Aqui em Tatuí, lecionei desenho. Também dei aulas em São Paulo, no Objetivo da avenida Paulista. Lá, exercia mais a parte de pedagogia. Lecionei na faculdade de Tatuí, na disciplina de desenho industrial, e na Asseta. Também dei aulas experimentais em vários lugares no Brasil.


    Conte-nos um pouco sobre o Clube dos 17. Em que ano ele nasceu e a que se destinava?

    Acassil – O Clube dos 17 nasceu no Bar XV, que era do Sílvio Xavier. Estávamos reunidos lá, quando montamos um clubezinho para fazer um jornalzinho. Isso entre os anos de 49 e 50. Pois bem, reunimos a turma e fomos fazer o tal do primeiro jornal. Aí, deu um rolo desgraçado, porque tinha que ter alguém responsável, tinha que registrar. Para fazer um jornal, não é fácil.

    Eu tinha amizade com um juiz de Tatuí. Nós amanhecíamos batendo papo, numa época difícil, em que não havia luz e existia uma “brigaiada”. Quando esses 17 se reuniram, se eu não me engano, o Junqueira era prefeito.

    Eu tive que registrar o jornal no meu nome, mas ele não era meu, era dos 17. Nomeei o Cláudio Del Fiol como diretor, e continuamos fazendo. Tivemos vários problemas, porque o prefeito ia no juiz e reclamava da gente.


    E sobre a história de enfeitar o Pinheirão e transformá-lo, naquela época, na maior árvore de Natal do mundo?

    Acassil – Do clube nasceu a ideia de enfeitar a árvore. O Osvaldo Villa Nova foi quem deu a ideia. Ninguém sabe disso, ninguém fala, mas foi ele quem apresentou a sugestão. Infelizmente, não me lembro em que Natal ele foi enfeitado.


    O senhor foi professor no “Barão de Suruí’ e criou, naquela época, o EMA (Estudos de Mísseis e Aeromodelismo). Conte-nos um pouco dessa experiência.

    Acassil – Eu, toda vida, fiz aviãozinho. E os alunos que gostavam começaram a pedir para ensinar. Só que o EMA virou um negócio muito importante. Ele não era fazer aviãozinho, não. Era para estudar, fazer foguete. Para fazer foguete, tinha que estudar.

    Nós fomos, inclusive, na Barreira do Inferno (base da Força Aérea Brasileira), onde caiu um foguete norte-americano. Levei alunos para lá, e quem me cedeu o avião para que a gurizada me acompanhasse foi o brigadeiro José Vaz da Silva.

    Que eu trabalhei no tal do Ciaoni (Central de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados). Fui convidado porque, geralmente, o aviador é espírita, mas, como eu sou agnóstico, o brigadeiro pediu para o Gil Zani me convidar para eu ir lá porque, assim, não me influenciaria por coisa nenhuma.


    O senhor foi presidente do Alvorada Clube e quem fundou a Thunder Discoteque. Também naquela época, nos ajudou a criar o bloco carnavalesco a Banda Bandida. Inclusive, desfilou conosco na rua. O que foi para o senhor ver a juventude premiada com esse projeto cultural?

    Acassil – Veja bem, quando fui presidente do Alvorada, a primeira coisa que eu tinha que fazer era construir o Alvorada. Eu demorei dois anos para construir aquilo lá. Eu consegui. Teve muita gente contra, aqui em Tatuí até, mas está lá, existe.

    A juventude não tinha aonde ir em Tatuí, não tinha o que fazer. Então, eu, com a ajuda de vários alunos, criei o Thunder. E a moçada ia lá para se divertir. E outra coisa: sem bebida, sem cigarro.


    O senhor sempre se envolveu com arte manual, como escultor, como pintor em vários estilos, como escritor de textos já publicados, inclusive, num libreto. Como é ser polivalente no mundo das artes?

    Acassil – O ser humano é o conjunto de tudo isso. A única diferença com os animais é que o ser humano faz arte. O resto é piada.


    O senhor foi o primeiro cidadão tatuiano a pintar na porta do seu Volkswagen o brasão de Tatuí. Em que ano foi isso?

    Acassil – Não foi bem eu. Foi meu pai quem pintou o brasão de Tatuí, em 1961. Acho que todo tatuiano devia usá-lo, e é bacana porque conta a história de Tatuí.


    Isso é um excesso de tatuianismo, Acassil?

    Acassil – É, sim. E eu sou muito bairrista.


    O senhor foi professor nos áureos tempos no “Barão”. Como era ser professor naquela época?

    Acassil – Era muito legal. Eu tinha uma maneira diferente de dar aula. Tinha que motivar os alunos, que estudar pedagogia, psicopedagogia, psicologia. E tinha que olhar cada aluno e ver se eu levantava a ideia de cada um deles. Isso era muito importante para mim.

    Sempre fui muito respeitado. Brincavam até que eu era o Hitler daquela época, porque eu queria tudo certinho. Eu queria que os alunos escutassem, que falassem.


    Dos seus filhos, alguém herdou o talento para as artes manuais?

    Acassil – Acho que deles, a Soraya, é a que gosta mais um pouco de pintar.

    A nossa cidade deve ao senhor o empenho por ser um facilitador. Colaborou com o projeto Alpha, com a Amart. Implantou a Asseta e, depois, o Colégio Objetivo. Continua sendo empresário que acredita na educação?

    Acassil – Eu parei com tudo quando me aposentei aos 75 anos. Desde lá, não mexi mais com isso. Não dou mais palpite e não converso mais com ninguém a esse respeito.


    Estou me recordando de ter visto uma foto sua na galeria de presidentes da Câmara Municipal. Em que ano ocorreu isso?

    Acassil – Virei vereador em 1968. Nunca pedi um voto, nunca fiz papel (panfletagem). Votaram porque quiseram. E eu fiquei satisfeito com isso. E, também, a gente não ganhava e tinha que trabalhar. Trabalhava gratuitamente. Eu ia toda semana para São Paulo com o Aido Lourenço e o Silvio Xavier. Toda semana íamos pedir coisa para Tatuí, e conseguimos bastante.


    Como o senhor vê a política em nível de Brasil, professor?

    Acassil – Eu não vejo. Eu tenho vergonha.


    Meu amigo professor Acassil, gostaria muito de agradecê-lo por tudo o que o senhor fez por Tatuí, por todos nós e pelo povo. Também pelo que ainda vai fazer.


    Acassil - Voss, nós falamos do passado, do presente e fomos até o futuro. Acho que isso é o mais importante para a sociedade. Continuo fazendo a mesma coisa, pintando, arrumando coisas, inventando, construindo. Não mudei muito, não.

    Estou concedendo essa entrevista a você porque você é mais íntimo da gente. Nunca dei entrevista. Inclusive, fui chamado para ir para a Venezuela, quando ganhei o título de professor excepcional. Um grupo veio me conhecer, mas não dei entrevista. Você é o único e nunca mais ninguém vai fazer.


    Errata

    Na edição anterior, na foto da festa junina do “Barão”, o noivo é o José Antônio Carneiro, e não o José Roberto. E a noiva, é a Luiza Bimbatti, e não a Vanda (apesar de serem irmãs).

    Também, no mesmo texto, onde se lê Celi Pavanelli, o correto é Sueli Pavanelli. Faltaram, ainda, os nomes das professoras de Inglês Maria Inês, Ruth e Junia, que lecionavam matemática no externato. Desculpem-me, mas valeu a intenção.