Tatuí, 24 de Abr de 2017
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  • ‘Casos Tatuianos’
  • A VOZ DO VOSS (Luiz Antonio Voss Campos) - em 16/04/2016 10:04:54

    foto: foto: foto: foto: foto: Arquivo pessoal foto: Cristiano Mota

    Meus amigos leitores, mais uma semana, mais um bate-papo com um amigo de longa data. Professor, músico, compositor, contador de causos, no que ele é especialista. Tatuiano da gema e do coração, mas, principalmente, um grande homem e cidadão desta terra.

    Converso com meu amigo Francisco Antônio Luciano de Campos – já foi Fran Gordo, agora é Fran Campos.


    Onde você nasceu, dia, mês e ano?

    Fran – Nascido em Tatuí, aos 29 de junho de 1952.


    Fran, você tem a mesma idade que a minha. Como você vê a nossa juventude hoje?

    Fran – A nossa juventude, minha e sua, já era. Agora, em relação aos jovens, eles perderam uma coisa muito importante, porque, hoje, tudo é feito pela internet. Feito dentro de casa.

    Nós tínhamos que fazer tudo na rua. Por exemplo, coisa simples como subir em árvores. A rua, no nosso tempo, era em terra. Era tudo mais saudável, e nós aprendíamos tudo nas brincadeiras. As pessoas ficavam sentadas defronte às suas casas, conversando. Hoje, se você fizer isso, corre sério risco de ser assaltado. Cinemas, voltas na Praça da Matriz: homens de um lado, mulher de outro. Isso nunca mais vai ter, e eles não vão saber o que é isso.


    Você sente saudades do tempo em que éramos jovens? E a sua primeira calça Lee?

    Fran – A saudade é de bastante coisa! Mas, a primeira calça Lee, hum. Calça Lee era uma raridade. Eu fui com meu pai comprar uma em São Paulo, e mexemos em muitas lojas da rua 25 de Março e não achamos em lugar nenhum. Entramos numa loja de judeus, e não tinha. Mas, tinha calça similar, a Far West. E a judia falava assim: “A brasileira também descorra”.

    Aí, resolvi comprar uma calça Dolza, mas o Euclides Ferreira, o Cridão, estava vendendo umas calças Lee que ele havia conseguido não sei onde. Fui eu e o falecido José Carlos Machado (Machadão) e compramos uma para cada.

    Só que era um lote que a Receita Federal havia apreendido e foi jogado um ácido nela, mas isso não aparecia. Com a primeira lavagem, apareceram os buracos, encheu. Se fosse hoje, seria uma calça da moda, mas, naquele tempo, era uma coisa horrorosa. Até tomei banho com a calça Lee para esfregá-la e vê-la desbotar.


    Você sempre conta e escreve causos da sua família neste jornal, com muita riqueza de detalhes. Você gosta de contar, relatar histórias e fatos?

    Fran – Isto está meio no sangue. Agora, está faltando as pessoas me contarem histórias ou fatos. Há pouco tempo, tive que fazer um tratamento médico e me afastei um pouquinho, mas, em breve, recomeçarei.

    Mas, a ideia não é minha! A ideia era do Euchário Holtz, que falava que Tatuí tinha tanta história, tantos causos, que daria para escrever um livro. Ele mesmo disse que já estava escrevendo um e, no fim, faleceu. Se tinha livro, está inédito até hoje.


    Você teve uma juventude com muita música, inclusive, com composições próprias. Uma delas falava sobre um barco de papel. Como era?

    Fran – A letra e a música são de 1972-73, por aí. A letra dizia isso:

    “Com um pedaço de papel,

    Vou fazer o meu chapéu de herói.”

    Na verdade, eu imaginei um louco com um chapéu de jornal na cabeça e um barquinho de papel em uma bacia, se achando um almirante, um almirante colorido.


    Você é filho da senhora Flora, professora de piano. Isso lhe trouxe alguma influência musical?

    Fran – Quando eu era criança, não alcançava o teclado do piano e tocava um trecho de uma sonatina, mas nunca consegui aprender a tocar piano. Arranho um violão, mas fui aprender a tocar piano em uma sala do São Pio X, aula de iniciação musical.

    Ensaiei, ensaiei para tocar com uma mão só e achei que a professora, senhora Dirce Moraes, ia gostar muito. Porém, após a minha apresentação, voltei para minha casa, que ficava ao lado do São Pio X, na travessa dos Pracinhas.

    Ela foi até minha casa e falou com a minha mãe: “É, Flora, ele não tem jeito para o piano!”. Assim, acabou o meu empenho com aquele instrumento.


    Lembro-me que um dos primeiros contatos com você foi na sua casa, quando ouvimos Led Zeppelin I, Santana, Jimi Hendrix e outros.

    Fran – Aquele, na verdade, era o volume II, pois, no Brasil, depois é que foi lançado o volume I. Houve uma inversão dos lançamentos. Do Jimi Hendrix, eu gostava do LP “Eletric Ladyland”, além de Santana, Beatles, Rolling Stones e Pink Floyd. E ouço tudo isso até hoje. Curto muito jazz, ouço a Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Louis Armstrong e as grandes divas.


    Como você vê a nossa cidade hoje? Você, que nasceu e cresceu bem no coração da cidade, o progresso é bom, ou mais ou menos?

    Fran – O progresso é mais ou menos. A gente que saía na rua e conhecia todo mundo, hoje, não conhece mais ninguém. Temos que nos acostumar que você não conhece ninguém e que ninguém conhece você.

    Antigamente, todo mundo conhecia todo mundo, filho de quem, mãe de quem, etc. A cidade era muito mais tranquila, amiga e feliz.


    Fran, qual é a sua profissão?

    Fran – Sou professor de história, geografia, desenho e educação artística. E na Asseta, lecionei história e estatística.


    Como é ser professor em um mundo tão conturbado em relação à educação? Ou seja, os jovens estão interessados em aprender?

    Fran – Olha, o que vou falar pode ser que muita gente não vá gostar, mas, hoje, existe o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que não permite que o professor dê aulas, porque ele acabou com a autoridade do professor.

    As crianças têm autoridade e, depois, acreditam em tudo. Uma mentira que uma criança disser, por exemplo, que um professor pegou no seu braço, ele fala com a mãe, cria uma história e o professor corre risco de ter que responder na Justiça para provar que isso realmente não aconteceu.

    Hoje, o professor não tem autoridade nenhuma e a criançada, na sua grande maioria, não quer estudar. Em uma classe, sempre tem meia dúzia que está interessada, se esforçando; outra parcela fica dormindo; e uma terceira, fica fazendo bagunça, nem aí com o problema.

    E não adianta tentar conversar, você só vai se estressar, você não consegue. Antigamente, não existia, mas, hoje, é “obrigado” a ir para a escola! Antigamente, não era.

    As pessoas se alfabetizavam no Grupo Escolar do nosso tempo, que, hoje, corresponde ao 9o ano do ensino fundamental. Lá, você aprendia de tudo. Uns faziam o ginásio, as pessoas podiam escolher se elas queriam e o que queriam estudar.

    Então, hoje, todo jovem é obrigado a ir. Na escola pública, eu posso falar, muitos só vão para comer. Os pais mandam os jovens para lá porque a lei assim determina, mas os jovens não têm ideia do que estão fazendo lá, o que podem melhorar na vida, não pensam em futuro.

    Para os meninos, o que interessa é um celular, um tênis e um boné. E as meninas usam maquiagem, um celular e um tênis. Só isso, infelizmente.

    Ninguém fala para eles: “Vocês estão aqui para fazer isto ou aquilo”.

    Eu tinha o costume de perguntar, nos primeiros dias dos anos letivos, o que eles gostariam de ser no futuro. E eles respondiam: “Ah, quero ser médico, engenheiro, advogado, e outros”. E eu falava: “Mas, você sabe o que tem que fazer para ser médico, por exemplo? Você tem que terminar, fazer colegial, estudar bastante, passar no vestibular, fazer faculdade, e isto leva em torno de uns dez anos!”

    Imediatamente, os jovens já falavam: “Ah, então não quero mais isso”. Eles acham que é assim: vou trabalhar de médico, vou ganhar dinheiro e pronto.

    Eles não sabem que têm um longo caminho para percorrer. E o jovem retruca: “Então, não quero mais”. E eles não têm a mínima ideia e nenhuma preocupação com o futuro. Essa é a visão dentro de uma escola pública. Porém, quando você vai para uma escola particular, nem bem inicia o seu ano, já estão falando em vestibular, é tudo muito distinto, e isso é um grande problema.


    Fran, para encerrarmos, gostaria que você comentasse essa história dos “Playboys da Praça da Matriz”. Quando aconteceu e quem eram eles?

    Fran – Nos anos 60 até final dos anos 70, a juventude tatuiana se encontrava lá na Praça da Matriz. Os comentários negativos diziam que eram “playboys”, que não trabalhavam, mas, praticamente, todos estudavam.

    Certo dia, o Gerson Sperandio, conhecido como Gerson Jacaré, trabalhava na Autoescola Barros, com o Nautílio, e alguém perguntou quem ele era. Ele respondeu: “Sou o Gerson, amigo do Nautílio, o playboy da praça”. Então, o Nautílio ficou conhecido como o “Playboy da Praça”, e todos adotaram essa brincadeira.

    Anualmente, há uma reunião na chácara do doutor Cesar Camargo, o Canário, onde os playboys se reúnem para relembrar fatos e histórias daqueles anos dourados. São eles: Canário, eu, Pedro Pestana, Pedro Miranda, Pardal, Zé Elias, Sérgio Galvão, Tato Cigano, Reizinho, Pingo, Nautílio, Keka do Esporte, Rogério, Marcelo Peixoto, Marcelo Ferreira, Rochinha, Abud, Jorge Albuquerque e outros. E, na próxima, vamos convidar você.

    Sempre rezamos por dois amigos já falecidos, o Guedão e o doutor Jaime Fonseca, e outros. Eles sempre são lembrados em todas as reuniões com as suas histórias.


    Fran, você é casado e tem filhos?

    Fran – Sim, sou casado com a Janete Aparecida Ferrarezi de Campos e sou pai do Gustavo, que é advogado, guitarrista da banda de rock Black Box, lá de Cerquilho, e o Otávio, que cursa engenharia civil.


    Fran, fiquei muito feliz em ver que você está bem e com a simpatia da sua mãe, dona Flora, chegando aos 89 anos, tocando diariamente seu piano, alegrando sua casa com a música e colorindo as paredes com seus quadros. E que você faça as suas considerações finais:

    Olha, agora você me deixou como o Jarbinhas, que tinha o sonho de cantar na TV. E o Rosendo tinha um programa de seresta em um canal de uma TV de Itu. O Rosendo fez o comercial: “Daqui instantes, o maior cantor de seresta da região”. E, na hora que o Jarbas entrou, o Rosendo falou: “Conta piada”. O Jarbinhas ficou desfigurado no ar e falou: “Mas, eu não sei contar piada”.

    Então, é isso: eu não tenho mais o que falar, e não lhe dei nenhum copo d’água, mas a minha mãe lhe deu uma sodinha. Muito obrigado, e até breve, com alguns causos tatuianos.